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A família ucraniana que encontrou paz em Torres Vedras

Written by on 24 de Março, 2022

A história de uma família ucraniana que encontrou refúgio no nosso concelho.

No dia 12 de março, Sílvia recebeu em sua casa uma família ucraniana. Na freguesia de São Pedro da Cadeira, em Torres Vedras, vive agora uma família de quatro mulheres e 3 crianças/adolescentes – Valentina, de 65 anos, Viktoria de 55, Maryna de 40 anos, Katia de 35, Anastasiia de 16 anos, Daniil de 15 e Artem de 9 anos – que se deslocaram do seu país à procura de um sítio que lhes concedesse paz. E encontraram.

Aqui, a família encontrou um sossego inclusivo. Quem nos dá essa certeza é a acolhedora da família, afirmando que “a receção por parte do SEF a esta família foi excelente, tudo decorreu com rapidez e sem obstáculos. A autarquia, quer por parte da câmara municipal, como da junta de freguesia de São Pedro da Cadeira têm sido muito prestáveis e cooperantes em todos os assuntos relacionados com os apoios à integração de todos.” Sílvia acrescenta ainda que “devemos um agradecimento especial ao senhor presidente de junta e à Inês Vaz da Câmara Municipal de Torres Vedras“.

“Toda a sociedade civil, incluindo vizinhos, amigos e familiares nossos,  têm sido incansáveis. A linguagem não tem sido obstáculo para nada. Associações, autarquia, SEF, hospital de Torres Vedras  têm estado muito disponíveis para ajudar sempre, apenas as escolas não têm conseguido dar resposta em tempo útil”.

Já incluídos também em atividades desportivas estão dois dos rapazes – de 15 e 9 anos – que treinam futebol na Coutada.

“A Associação Cultural e Desportiva da Coutada tem também tido um papel fundamental no processo de integração dos dois rapazes de 15 e 9 anos. Ambos já se encontram a treinar futebol na Coutada, tendo-lhes sido oferecidas todas as condições e equipamentos, incluindo o enorme apoio do presidente, do coordenador desportivo e treinadores que até oferecem boleia sempre que necessário”.

“Relativamente a emprego, as duas mulheres elegíveis para trabalho, já estão inscritas no centro de emprego e foi-lhes oferecido trabalho numa IPSS. Deverão iniciar funções no primeiro dia de Abril”.

Contudo, existe ainda uma situação que, segundo a família, é urgente alterar. As três crianças ainda não conseguiram matricular-se na escola. Sílvia expõe esta situação, alegando “conhecimento humano” por parte do Ministério da Educação: “Temos a necessidade de os integrar na escola, não tanto pela aprendizagem, mas especialmente pela interação social com pares, que é  fundamental para um bom desenvolvimento emocional e social dos 3. São miúdos que vêm de Kiev, cidade ameaçada e com ataques sucessivos. Em casa passam o dia em contacto com a guerra. É urgente a sua entrada na escola e a oportunidade de fazer amigos. Nesta área não temos tido resposta alguma.”

Duas das crianças, de 15 e 16 anos, tentam matricular-se no Agrupamento de Escolas Madeira Torres. Já a de 9 anos, recorre à Escola de São Pedro da Cadeira, pertencente ao Agrupamento de Escolas São Gonçalo.

Na minha opinião, a escola está muito focada em ter as condições perfeitas para os receber, o que compreendo mas não me parece ser o que estes miúdos precisem para já. Eles precisam de se sentir crianças e jovens, com uma vida o mais próximo da normalidade possível. Precisam conhecer novos amigos, ter maior contacto com a nossa cultura, com a nossa língua, mesmo que ainda não a falem. Já esta semana eles irão, junto com as adultas, iniciar aulas de português dadas por uma associação a “Skeak Social” na freguesia de São Pedro da Cadeira“, acrescenta ainda a acolhedora da família, salientando a importância de resolver, o quanto antes, esta questão: “Seria mesmo muito importante que fosse possível acelerar este processo, para que possamos ter uma real integração desta família na sociedade portuguesa quanto antes. A entrada na escola destes miúdos ontem já era tarde”.

As três crianças ainda se submeteram a aulas online, lecionadas a partir da Ucrânia. No entanto, devido aos bombardeamentos e constantes ataques em Kiev, a situação era inconcebível.

A ONFM tentou contactar ambos os agrupamentos escolares mencionados mas, até à data de publicação deste artigo, apenas conseguiu chegar à conversa com a Diretora do Agrupamento de Escolas Madeira Torres, Rita Sammer.

Rita Sammer, prontamente disponível para esclarecer, adiantou que, segundo a legislação recentemente aprovada e seguida por todos os agrupamentos escolares, ficou acordado que os alunos que entrassem no terceiro período escolar poderiam beneficiar do próximo ano escolar de adaptação, daí não ter sido imediatamente aprovada a entrada das crianças na escola logo à sua chegada.

Tendo em conta que estas crianças e jovens não possuirão, decerto, qualquer domínio da língua
portuguesa, considera-se como fulcral a disponibilização de mecanismos que respondam às
necessidades efetivas dos/as alunos/as no domínio da aprendizagem da língua do país que os/as
acolhe, e que permitam, igualmente, desde logo, manterem um contacto sistemático com a
comunidade educativa, em particular com os alunos da turma.
Numa primeira fase da integração, permite-se apenas a frequência de atividades letivas que a
escola considere adequadas ao caso em particular, sem, contudo, se permitir uma desvinculação
completa do grupo/turma. Assim, as escolas poderão decidir, caso a caso, quais as disciplinas a
frequentar, em função do conhecimento das situações específicas, bem como do perfil dos/as
professores/as, nomeadamente ao nível do domínio de línguas estrangeiras facilitadoras da
comunicação com os/as alunos.
B.1. No ano letivo em que os/as alunos/as integram o sistema de ensino, e no seguinte, no
caso dos/as alunos/as que integram o sistema de ensino nos últimos três meses do ano
letivo, a direção do AE/ENA, sob proposta do conselho pedagógico, pode optar por uma das
seguintes situações, para além do disposto no artigo 12.º da Portaria n.º 223-A/2018, de 3
de agosto, e no artigo 11.º das Portarias n.os 226-A/2018, de 7 de agosto, e 235-A/2018, de
23 de agosto:
a) Promover uma integração progressiva no currículo, com base no perfil
sociolinguístico e no percurso escolar dos/as alunos/as, de forma a reforçar a
aprendizagem da língua portuguesa e o seu desenvolvimento enquanto língua
veicular de conhecimento para as outras disciplinas do currículo, sem prejuízo
da obrigatoriedade do cumprimento da carga horária total semanal definida na
matriz curricular nacional;
Crianças e jovens beneficiários ou requerentes de proteção internacional
Guia de Acolhimento
8
b) Desenvolver outras modalidades e ou projetos de intervenção aprovados pela
escola, sob parecer favorável da DGE ou da ANQEP, I.P., no caso das ofertas de
dupla certificação”.

Rita Sammer acrescenta ainda que a escola considera necessária a presença de um adulto focado na integração das crianças refugiadas, para que as mesmas não se sintam desamparadas. Atualmente, a escassez de professores a contratar para escolas públicas faz com que esta tarefa se torne ainda mais complicada.

No entanto, o AEMT está a fazer “tudo o que pode” para resolver a situação, tendo já solicitado a contratação de um professor de português de ensino básico que possa acompanhar as duas crianças, de 15 e 16 anos, que ainda não detém qualquer conhecimento da língua portuguesa.

No dia 24 de fevereiro de 2022, a Europa transformou-se num palco de guerra. A Rússia invadiu a Ucrânia, levando à morte de milhares de militares e civis. As fronteiras tornaram-se abrigos temporários de quem tenta fugir da guerra.


Reader's opinions
  1. Rui Magalhães   On   24 de Março, 2022 at 18:40

    Conheço uma família Portuguesa que mora em Torres Vedras e que sobrevive com muitas dificuldades!
    Não seria mais lógico estes filhas da puta cuidarem primeiro dos nossos???

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